Nenhum voo está livre de imprevistos. Wander Aguilera Almeida, empresário e piloto de aeronaves, aponta que a diferença entre uma situação controlada e um incidente muitas vezes está na capacidade de antecipar o que pode dar errado. Essa abordagem está no cerne de um modelo que vem se tornando cada vez mais prevalente na formação de pilotos: a gestão de ameaças e erros, conhecida pela sigla TEM.
Desenvolvido a partir de observações de voos reais e adotado por organismos internacionais de aviação civil, o modelo parte de uma premissa simples. É importante ressaltar que ameaças e erros são inerentes ao processo operacional. O objetivo não é eliminá-los completamente, mas reconhecê-los a tempo e evitar que se transformem em situações indesejadas.
Originalmente empregado na aviação comercial, o conceito foi progressivamente adotado também na instrução e na aviação geral. A proposta consiste em transformar a segurança em uma prática contínua, e não meramente reativa. A seguir, apresentaremos o modelo e suas implicações na rotina dos viajantes.
Ameaças, erros e estados indesejados
No modelo de gerenciamento de voos (TAM), ameaças são definidas como fatores externos que aumentam a complexidade da operação. Entre esses fatores, podemos citar condições meteorológicas desfavoráveis, pistas curtas, tráfego intenso, falhas de equipamentos ou pressão de horário. Essas substâncias não dependem da ação do piloto, mas demandam atenção e planejamento para que não se acumulem ao longo do voo.
Erros são ações ou omissões da própria tripulação, incluindo o uso incorreto de frequências, esquecimento de itens de checklist ou configurações de altitude incorretas. A falta de gerenciamento adequado de ameaças e erros pode resultar em condições indesejadas da aeronave, como velocidade fora do previsto ou desvio de trajetória, o que compromete a margem de segurança.
A lógica por trás dessa abordagem é interromper essa sequência o quanto antes. Wander Aguilera Almeida ressalta que identificar ameaças durante o processo de planejamento constitui uma das estratégias mais eficazes para reduzir a probabilidade de erros durante o voo.

A aplicação prática do modelo na rotina operacional
A gestão de ameaças e erros se traduz em hábitos que acompanham todas as fases da operação:
- Briefing antecipado: antes da decolagem e da aproximação, revisar as principais ameaças previstas e definir como lidar com cada uma delas.
- Uso disciplinado de checklists: listas de verificação ajudam a capturar erros comuns antes que afetem a segurança.
- Monitoramento constante: acompanhar instrumentos, trajetória e comunicações permite perceber desvios logo no início.
- Critérios para interromper: estabelecer previamente quando arremeter, retornar ou desviar evita decisões improvisadas sob pressão.
A adoção desses hábitos, por sua vez, transforma a segurança em um processo dinâmico. Ao avaliar o cenário, Wander Aguilera Almeida identifica que o respeito às regras de segurança requer a aceitação de que erros são inerentes à natureza humana e a criação de barreiras para mitigar sua evolução.
Ademais, o modelo promove a revisão após o voo. A avaliação crítica, que identifica as ações bem-sucedidas e as oportunidades de aprimoramento, contribui para o desenvolvimento do planejamento estratégico nas operações subsequentes e para a identificação de padrões de comportamento que podem ser melhorados.
Antecipar para não precisar improvisar
Ademais, a gestão de ameaças e erros proporciona uma abordagem sistematizada para a segurança, fundamentada na antecipação e no reconhecimento de que a infalibilidade entre os pilotos é uma quimera.
Como pontua Wander Aguilera Almeida, a adoção desse modelo na aviação geral tende a fortalecer a disciplina operacional, especialmente em voos conduzidos por um único piloto.
Cada voo apresenta riscos específicos. A capacidade de enxergar tais problemas antes da decolagem e de manter atenção suficiente para corrigir pequenos desvios antes que se tornem grandes problemas é o que realmente faz a diferença no resultado final. É imprescindível destacar que é justamente essa atenção constante e rigorosa que garante a segurança em cada etapa do processo.
